EDIÇÃO 22

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O noviço zen Daibai perguntou a Baso, o mestre:
— O que é o Buda?
Respondeu Baso:
— Esta mente é Buda.
Outro monge repetiu a pergunta:
— O que é Buda?
Baso respondeu:
— Esta mente não é Buda.

 

 

Ao visitar os Estados Unidos nos anos 80, Madre Teresa disse que os americanos, embora materialmente ricos, eram pobres de espírito. O materialismo da cultura ocidental é fruto de um mundo dividido entre matéria e espírito. Muitos estão preocupados com poder, outros com o amor e alguns com o sentido da vida. Mas parece que encontrá-lo é como achar uma agulha em um palheiro. No passado, o hermetismo era palavra de ordem, galgava-se degraus e graus em fraternidades iniciáticas, sempre em busca da “verdade”. Hoje, não há mais por que reter informação: há que torná-la acessível, disponível a todos. A exposição midiática em excesso certamente é criticável, mas há um lado bom, o mesmo que nos dá a chance de escolher. Popularizar, democratizar a informação é sempre um risco, mas um bom risco, justo e digno, ainda mais para quem conseguir discernir, para quem souber separar o joio do trigo.
Muita água rolou debaixo da ponte da vida, entre Johannes Gutenberg e a internet, para que pudéssemos estar aqui, prontos a escolher. Mas por que escolher entre cara e coroa se ambas faces fazem parte da mesma moeda? O místico compreende que o obstáculo ao amor incondicional é fruto da falta de unicidade, esse sim, o verdadeiro maya, a grande ilusão.  Jesus disse: “Eu e o Pai somos um”.


A mecânica quântica é parte da nossa resposta.


O físico indiano Amit Goswami, que se popularizou com o filme “Quem Somos Nós?”, filho de um brâmane, foi materialista dos 14 aos 45 anos de idade. Enfrentou problemas no ambiente catedrático e no âmbito particular. Como resultado, entrou em profunda crise. Sua batalha íntima o levou a somar forças entre a espiritualidade e a ciência. Amit optou pelo caminho do meio, tendo como grande aliado a mecânica/física quântica - com todos os elementos complementares como o movimento descontínuo e a não-localidade quântica (ou em outras palavras o “céu”, o domínio transcendente da matéria, fora do espaço-tempo, que gera eventos que podem ser localizados: a Sincronicidade).


O Universo Autoconsciente – Como a consciência cria o mundo material (368 páginas, editora Aleph) de Amit Goswami (com Richard E. Reed e Maggie Goswami) desconstrói a convicção de que a matéria é o elemento formador da criação. Em vez disso, Amit afirma que o verdadeiro fundamento do que conhecemos vem da consciência, transcendental, fora do espaço-tempo, não local e onipresente e que o mundo físico está submetido a ela. O realismo materialista não é o parâmetro para o que é palpável, mas sim a consciência. Goswami escolhe como escola o Idealismo Monista, que ao invés de postular que tudo (inclusive a consciência) é constituído de matéria, mostra que a matéria nasce da consciência e que é manipulada por ela. Esta filosofia afirma que a realidade da matéria é secundária à da consciência. Os físicos explicam fenômenos, mas a consciência não é um fenômeno. Goswami diz que tudo é fenômeno da consciência.
Inverter e unir os extremos é uma mudança de paradigma tão impactante, que altera definitivamente a nossa forma de ver o mundo, de nos vermos, de sentir a realidade. O dualismo da física cartesiana a que fomos submetidos, o mesmo que nos fez acreditar em um mundo de extremos, agora se integra para nos libertar das nossas próprias limitações. Cientificamente, a mudança começou a despontar no campo da física a partir do início do século XX, a mesma física que criou a bomba atômica, a mesma física que fez um cartesiano Einstein dizer que “Deus não joga dados”.


De certa forma, Deus tanto joga como não joga.

 

Filosoficamente, a unicidade é milenar, não é um fato novo, veio de Buda; de Platão e do seu mundo de sombras. Não crer no dualismo, é não crer em paz e guerra, certo ou errado, religiosidade ou ateísmo, inteligência ou ignorância, externo ou interno. Crescemos em um mundo separado entre ciência e religião, nós aqui e ele lá. Só atacamos o outro, porque não compreendemos que o outro somos nós, que diferenças não existem. Somos partes de um todo, integrado que se alienou da unicidade durante séculos. Se há guerra, desmatamento, mentira ou fome, é porque nada compreendemos sobre unicidade, porque não entendemos que nada pode existir fora de nós. Só podemos amar se compreendemos o ódio; se desmatamos, nos desmatamos e por vai.

 

Amit Goswami prova a existência do mundo transcendental através da física quântica. Como por exemplo, no caso do salto quântico, quando um objeto quântico deixa de existir aqui e simultaneamente passa a existir ali, sem ter atravessado o espaço entre o aqui e o ali. O que seria isso? Fantasia? Não, é ciência. Ou como no exemplo do colapso da onda, quando um objeto quântico só é perceptível como uma partícula no espaço-tempo porque o observamos. O objeto existiria se não o tivéssemos observado? Um objeto quântico, quando observado, influencia simultaneamente seu objeto gêmeo correlato – pouco impostando a distância que os separa (um objeto quântico quando não está sendo medido, pode estar, no mesmo instante, em mais de um lugar).  Um experimento realizado pelo físico Alain Aspect e seus colaboradores em Orsay, França, confirmou a ideia da transcendência na física quântica, ao mostrar claramente que quando dois objetos quânticos são correlacionados, se medimos um deles (produzindo, destarte, o colapso de sua função de onda), a outra função de onda entra também instantaneamente em colapso — mesmo a uma distância macroscópica, mesmo quando nenhum sinal há de espaço-tempo para lhes mediar a conexão. O nome técnico da ação instantânea à distância, sem sinal, é não-localidade. O físico australiano L. Bass e, mais recentemente, o americano Fred Alan Wolf observaram que para que a inteligência possa operar, o acionamento de um neurônio tem que ser acompanhado do acionamento de numerosos neurônios correlatos, a distâncias macroscópicas— até 10 centímetros, que é a largura do tecido cortical.

 

A linguagem de “O Universo Autoconsciente” é abrangente, esclarecedora com exemplos digamos, exemplares. Perguntas são feitas a todo instante com evidentes respostas: se construíssemos um computador consciente, ele poderia ser criativo (fenômeno advindo da não-localidade) como são os humanos? O matemático Roger Penrose argumenta que o raciocínio algorítmico do computador, não permite o desenvolvimento de teoremas. Temos de “ver” a verdade de um argumento matemático para convencermo-nos de sua validade, e chamamos isso de consciência. Em outras palavras, a consciência tem de existir antes da capacidade algorítmica do computador.


Amit diz que CONSCIÊNCIA (“ver sem a consciência de ver”, ou seja, captar ondas fora do espectro da percepção) é diferente de PERCEPÇÃO (a consciência de ver). Os objetos materiais (uma bola) e os objetos mentais (como pensar em uma bola) são os dois, objetos na consciência, um não existe sem o outro. O fato é esse: o universo só existe se percebido. Quantas vezes você só foi perceber a existência de algum objeto depois de ser chamado a atenção? Isso quer dizer que vemos o que existe porque a nossa visão faz o objeto existir. Na mesma linha de pensamento, o livre-arbítrio é uma farsa porque as nossas escolhas “livres” são pré-determinadas pelo ego. Ser livre é poder dizer não a respostas condicionadas. O que fazemos é dirigir a força da criatividade para a identidade do self, fortalecendo-o. Jung diz que o self é a origem da vida psíquica, o centro da personalidade; outras vezes refere-se a sua realização como o objetivo. O conceito de pecado gera o nosso “inferno” porque alimentamos e materializamos o self e tudo isso baseado em crenças partidárias, em limitações cartesianas. As nossas crenças não nasceram conosco, foram assimiladas e absorvidas: tudo pode ser recompreendido, alterado, simplesmente ao não nos apegarmos a elas.

 

As obras de Amit são libertadoras, são como um choque de realidade transcendente na forma de uma chave mágica, que abre as velhas portas de mansões carcomidas. “Se o homem contempla as coisas em meditação mística, tudo se revela como uno", do Zohar, um dos trabalhos mais importantes da Cabala. “A humanidade tem de acordar, escutar, ouvir, ver esse universo autoconsciente. Existem duas fortes tendências: uma nos leva a estados de ser cada vez mais condicionados, a outra nos leva para um lado mais criativo. Nesta idade tão materialista, o condicionamento que nós recebemos é muito intenso. Quanto mais condicionados ficamos, mais distantes estaremos da realidade quântica. Daí a criatividade e o amor serem muito importantes, pois são forças unificadoras que nos levam de volta à unidade. Até que a gente sinta a força e o poder da unidade, dizer que o universo autoconsciente é pura falação. Assim, só se consegue usar essa ideia para ganhar dinheiro, sem resultar em nenhuma transformação de ninguém. Ao perceber que a realidade é uma coisa só, aí sim conseguiremos nos transformar. E a nossa vida se tornará feliz, criativa, amorosa. Com a nossa transformação individual começará a haver uma transformação coletiva, mundial. Tenho boas esperanças em nossas possibilidades de alcançar uma transformação planetária neste século que se inicia”, Amit Goswami.

(Carlos Lopes)

 

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LED ZEPPELIN – Fotografias – Neal Preston – 192 páginas – Madras.

 

“Jimmy, como você quer a sua fotografia?”
“Quero poder, mistério, romance e um martelo dos deuses”.

 

De cara, Preston, o fotógrafo escolhido pelo Zeppelin na década de 70, para acompanhá-los durante várias excursões aos Estados Unidos dá uma certeira entrevista sobre o trabalho e o período vivido com a banda e como ele mesmo diz: “o resto é história”. Na verdade, históricas são as fotos que o garoto que nunca pensou em se profissionalizar tirou. Maravilhosas sim, entre 1973 e 1979, ainda mais impressas em papel de primeira nessa belíssima edição brasileira.


Curto foi o período vivido entre as primeiras fotos informais no meio da plateia aos bastidores dos shows do Ten Years After, MC5 e Janis Joplin. Com dois amigos, ainda no colégio, Neal fundou a empresa KLN (Kevin, Louie e Neal) e à tarde ia de metrô até Manhattan para vender as fotos para as revistas especializadas.Mudando-se para Los Angeles em 71, entregou vários portfólios até conseguir um trabalho na Atlantic Records, a gravadora do próprio Zep. Neal Preston cobriu os shows em São Francisco, Los Angeles, Long Beach e San Diego, basicamente na Costa Oeste em 1973. Já mais tarimbado em 74, e graças à forcinha do empresário Peter Grant e da fundação do selo “Canto do Cisne” da banda, Neal Preston foi convidado para integrar a equipe. Voilá. Touché.

Mais do que falar do livro, uma joia rara diga-se de passagem, escolhi duas respostas do autor dadas à entrevistadora e DJ Cynthia Fox.


E como é fotografar a intimidade dos artistas?


“Tem que ser discreto o tempo todo, como uma mosca na parede que não se mete no caminho. Não seja o centro das atenções. Use a cabeça em termos daquilo que você vê, o que fotografa e o que você conhece”, responde Preston. “Eles eram famosos por serem muito reservados, como um clube para homens, uma sociedade, por assim dizer. Então para eles tudo isso era provavelmente uma novidade, a ponto de me permitirem esse tipo de acesso. Não era como se estivessem permitindo que as pessoas os fotografassem em um hotel aqui e ali, mas era quase um parto feito enquanto eu estivesse na estrada. Era o trabalho dos sonhos”.

 

E a revelação das fotos? Como você fazia?


“Eu agendava com um laboratório de revelação em cada cidade-base que a banda montava com uma conta de débito que pagava adiantado. Eu pegava os filmes de cada dia, colocava em envelopes e escrevia as instruções para a revelação. O empresário da excursão me deixava usar a limusine para ir até o laboratório porque a banda levaria pelo menos uma hora para tomar banho e ficar pronta para sair à noite. Então as limusines ficavam paradas em frente aos hotéis sem fazer nada. Assim que meus envelopes com os filmes ficavam prontos para serem levados, o empresário me deixava usar a limusine para ir ao laboratório e eu colocava os envelopes na caixa de entrada do lado de fora, para que os funcionários do laboratório revelassem assim que chegassem na manhã seguinte. O laboratório montava seis folhas de provas para cada rolo de filme em branco e preto, um para cada membro da banda, um para o empresário e um para mim. Quando eram entregues no meu quarto ao meio-dia do dia seguinte, na maior correria, eu tinha de montar cada colagem e as transparências prontas eram entregues para mim em caixas e eu as carregava no projetor de slides, e passava a noite toda em claro olhando as fotos para fazer as montagens”.


Ao folhear o livro, o leitor tem certeza: esse era o cara certo para o trabalho certo. Não foi por acaso que os músicos da banda inglesa fizeram tanta questão de tê-lo com eles. Agora, as portas e os bastidores do Led Zeppelin estão totalmente abertos a todos.

(Carlos Lopes)

 

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Pink Floyd primórdios – Barry Miles – 240 páginas – Madras

 

 

“Aquilo o que o artista escolhe para ser arte é arte”. Marcel Duchamp.

Me sentei para escrever esta resenha mas momentaneamente sem inspiração, pensei “Por que não me inspirar com um dos discos do Floyd que mais gosto: o Atom Heart Mother”? (Que o baixista Roger Waters odeia odiar!) E assim foi feito: ao refestelar-me com a audição dessa obra, fiquei mais do que preparadinho.

O primeiro livro de Barry Miles que li foi Many Years From Now, a biografia (autorizada, ou seja, chapa branca) de Paul McCartney, na qual o ex-Beatle confessa que foi Miles quem o conduziu ao mundo da arte na metade dos anos 60.  A influência de Miles para o aprofundamento da música do quarteto de Liverpool no experimentalismo foi tanta, que foi em seu apartamento em Londres que McCartney se encontrou com o escritor William Burroughs e se aprofundou no jazz e no experimentalismo. A livraria Indica Books and Gallery e o jornal underground International Times de Barry foram tão significativos para o período 66/67/68, que foi na tal livraria que Lennon e Yoko se encontraram. Literalmente, que loucura. Quando os Beatles fundaram a Zapple, o selo alternativo da sua gravadora maluquete Apple records, Miles foi o coordenador.

Nesta resenha me debruço sobre o início da banda nos acelerados anos 60. Para maiores informações, nada melhor do que o próprio livro.

 

Miles viu o Pink Floyd tocar quando ainda se chamava The Pink Floyd Sound e escreveu o primeiro artigo sobre a banda em 1966, fundada dois anos antes para tocar clássicos pedrada do R&B. Parece meio incrível que eles tenham começado com um som que nada lhes faz juz, mas a história tem o seu próprio desenrolar. Ainda mais que o rock que chegou aos ouvidos dos jovens meninos ingleses, por volta de uma década após a Guerra, era o classição, o pai dos rocks e mesmo com a péssima sintonia da Rádio Luxemburgo, a misssa foi rezada e os adeptos enfurnaram seus ouvidinhos em fones para ouvir a melhor música jovem que se poderia escutar. Em “Primórdios”, Miles faz um grande trabalho documental e descritivo, como poucos. E o Floyd merece.


Oriundos de Grantchester Meadows, uma zona rural inglesa na cidade de Cambridge, de certa forma o ruralismo que os antecedeu, influenciou a sonoridade da banda. Nick Mason e Richard Wright nasceram em Londres, mas os três principais compositores do Floyd vieram de Cambridge: David Gilmour, Syd Barrett, Roger Waters. Exatamente esses dois últimos personagens que sempre fascinam, o primeiro pela inteligência que se perdeu na bruma do tempo e o segundo, que soube usar a sua, para fins mais produtivos. O pai de Waters foi morto em Monte Cassino em 1944, curiosamente, o mesmo local onde as tropas brasileiras lutaram contra os nazistas. Sua famíila (esquerdista) se mudou de Londres para Cambridge por causa dos fulminantes ataques nazistas da Segunda Grande Guerra e esse período marcou por demais o jovem de 2 aninhos, pois esse mesmo pai ausente se tornou uma obsessão perene que o fez criar obras inesquecíveis. A sensação de abandono que tinha em relação à Mary sua mãe, professora primária, o fez compor “Mother” do The Wall, ópera composta porque o músico simplesmente odiou cada dia que passou no colégio.  Seu companheiro de banda, Syd Barrett, também foi aluno de Mary Waters.

 

Syd Barrett (nascido Roger) era o quarto de cinco irmãos. Seu pai era um médico patologista (estudo das doenças), especialista em fungos e amante de música. Ele e sua irmã Rosemary ganharam o prêmio da Cambridge Guildhall por tocarem ao piano “Danúbio Azul”, uma valsa composta por Johann Strauss. No colégio, Roger Keith "Syd" Barrett era hiperativo, mas simpático, gostava de conversar e de expressar sua opinião aos professores, diferentemente de Rogers, retraído. Porém, quando o pai de Syd morreu em 1961, sua personalidade mudou completamente: começou o isolamento com os problemas econômicos inclusive, sem o susteio do pai. Quando Roger e Syd se encontraram falaram sobre juntarem o equipamento, montarem uma banda com dois amplificadorezinhos de 30 watts cada. Syd usava o visual existencialista, de suéter largo e óculos escuro. Um dia, o Roger que virou Syd encontrou “Fred”, que na verdade era David... Gilmour.


A união de todos ocorreu em Londres entre 63/64, quando Syd se juntou aos Abdabs de Roger Waters, que já tocava baixo e Syd comprou uma guitarra. Rick Wright, na época instrumentista de sopro, disse que o som mudou lentamente de R&B (que precisavam tocar em shows de 5 horas!) para uma música instrumental mais livre graças a Barrett. Depois de terem aprendido a tocar juntos com um dicionário de acordes em sua cidade natal, Syd e Gilmour tomaram LSD e chazinho de cogumelo em 65, o ano do “Socorro!”..


No outono de 64, adotaram o nome Pink Floyd, por que um dos gatos de Syd se chamava Pink e o outro, Floyd. E foi Syd quem começou a tirar sons estranhudos do instrumento, deslizando objetos sobre as cordas gerando notas, criando mil efeitos, até que ele teve a sua primeira “viagem” de LSD com 20 anos para em seguida enveredar pelo aspecto “religioso” da droga 9inclusive escutava “Om” de John Coltrane sob efeito de duas gotinhas). Se contar ninguém acredita, mas Yoko Ono, pré-Lennon, subiu ao placo de um show especial do Floyd nesse período em 1966 e fez uma grande performance pedindo que todos tocassem no escuro. Aproveitaram para levar uma motocicleta para o palco, no escapamento da qual colocaram um microfone para fazer o maior barulho.

 

Tempos livres esses...


As festas para a banda tocar no underground londrino, foram se sucedendo umas após as outras, com mais som e mais luzes (incluindo o truque da projeção de gelatina), fortalecendo o nome da banda até que a coisa esquentou de vez no famoso verão de 67: o Pink Floyd já era a cara da música psicodélica inglesa. Como cabeça, alma e mente do PF, Barrett escrevia canções inglesas inteligentes, com referências e citações a Alice de Lewis Carroll, Senhor dos Anéis, contos de fadas, tudo muito britânico, enfim. Não tardaria a surgir um convite para gravar e pintou a canção sobre roubar roupas femininas de um varal chamada “Arnold Layne” (apesar da banda não querer por achar “comercial”) até o primeiro álbum “The Pipes At The Gate Of the Dawn”, gravado no mesmo estúdio e paralelamente a Sgt. Pepper´s dos Beatles. O farto consumo de psicotrópicos acabou com o que restava dos neurônios de Barrett. Foi aí que seu ex-companheiro de aprendizado do livro de acordes, no velho quarto de Syd em Cambridge, foi convidado para substituí-lo em 1968: David Gilmour. E entre tapas e beijos, brigas e desentendimentos entre Waters e Gilmour, o ótimo livro “Primórdios” segue até o ultra famoso Dark Side of the Moon lançado em 1973.


Roger Keith "Syd" Barrett, viveu recluso até desencarnar em 7 de Julho de 2006.

(Carlos Lopes)

 

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GLAUCO MATTOSO

 


Glauco Mattoso, entrevistado na edição anterior de O Martelo, retorna às nossas páginas com mais algumas de suas obras.

 


A primeira delas é “Malcriados Recriados Sonetário Sanitário” (162 páginas – Demônio Negro), o sexto volume da série “Mattosiana”, na qual o autor inclui centenas de seus mais escatológicos sonetos, dentre os quais quarenta e um livremente traduzidos do fescenino poeta dialetal italiano Giuseppe Belli, porém mantendo o rigor métrico e rítmico. O “poeta da crueldade” questiona a hipocrisia humana, que, por trás das convenções do asseio e da assepsia, mascara as grandes mazelas da suposta civilização.

 

 

 

 

 

DOS MEUS MAIS MAUS MODOS

Quem segue apenas regras de etiqueta
não age normalmente! Dar a mão,
talheres segurar, sorrir ou não,
usar no bolso o lenço ou a caneta...

Será que devo achar que se intrometa
quem queira apresentar-me ao seu patrão?
Será correto usar um palavrão
e, em vez de "vulva", declamar "buceta"?

E o copo? Fica à esquerda ou à direita?
E quando, por acaso, eu for canhoto?
Beber no canudinho a gente aceita?

Comigo não tem disso! Solto arroto
se acabo de comer! E quem suspeita
que o peido é meu, matou: sou mesmo escroto!

 


DO BANHO ENFADONHO

Melhor é tomar banho quando a cama
deixamos, de manhã, ou quando vamos
deitar? Cruel dilema! Quem exclama
tal coisa é adolescente, convenhamos...

O cara pensa assim: "A minha mama
não quer que eu durma sujo? Que fedamos!
Suados acordamos? Quem reclama
que fique longe e cale seus reclamos!"

Assim, já nem se banha de manhã
nem quando vai deitar, pois tanto afã,
durante o dia, cansa e dá preguiça...

Quem sabe se inventarem um chuveiro
portátil e instantâneo, aquele cheiro
de sebo diminua em sua piça...

 

PARA A ASSEPSIA BUCAL

Gozado! Alguns fedores, que nos dão
repulsa, os aceitamos quando em nós
ocorrem, e fazemos deles voz
de nojo quando alheios eles são!

Passar de nossos dentes pelo vão
aquele barbantinho, logo após
comermos, é normal. Mas, quando a sós,
cheiramos o tal fio, e é fedidão!

Fedor de coisa podre, que, se alguém
pedisse que cheirássemos, seria
motivo de recusa e de desdém...

Mas nossa podridão nos delicia
a ponto de querermos, se não vem
ninguém, cheirar de novo a baba fria...


DAS ENTRANHAS ESTRANHAS

Quem tem nojo de miúdo
e não pode ver moela
nem buchada, a ver tem tudo
com meu nó bem na goela.

Dobradinha é como aquela
coisa branca que um estudo
anatômico revela
no interior dum cabeçudo.

Tripas? Vísceras? Que nada!
Eu prefiro ter, de cada
animal a nobre parte!

Só não causam-me asco ou dano
secreções do corpo humano
que, luxento, outrem descarte...


DO PONTO DE VISTA

A bunda, sobre o vaso, se esparrama.
Se vista por debaixo, é como o teto
da arena, pelo olhar dum arquiteto
maluco, que distorça o panorama.

Porém, quando do rego se derrama
a mole merda sobre um pobre, inquieto
e aflito rosto, o jato de dejeto
mergulha um ser humano em chula lama!

Já vi cena do tipo: na gravura,
a cara do inimigo aparecia,
no fundo da privada, bem segura.

Depois que, sobre a tábua da bacia,
sentava-se um soldado, a bosta dura
formava um bolo e a boca recobria!


 

A Planta da Donzela (220 páginas – Lamparina)

 

Este romance “fetichista”, na verdade é "A pata da gazela" de José de Alencar reescrita sem nenhum pudor. Mattoso o finalizou entre março e maio de 2004, projeto acalentado desde a década de 1980, enquanto escrevia o "Manual do podólatra amador". Devido ao glaucoma, o projeto levou duas décadas para ser finalizado. A pata foi baseada no conto "A Cinderela" e na fábula do leão amoroso de La Fontaine e critica a sociedade brasileira do século XIX e quem melhor poderia atualizá-la? Glauco transporta o sadomasoquismo dos bordéis ingleses na era vitoriana para o Brasil.


O crítico carioca Pedro Ulysses Campos escreveu que "Neste romance intertextual, parte da mesma trama fetichista, em torno de um cobiçado pé feminino, e situa a ação no mesmo cenário imperial do Rio de Janeiro no século XIX. Mattoso distorce o caráter dos personagens alencarianos, constrói seus próprios tipos para contracenar com Horácio e Amélia, introduz na narrativa o imprescindível componente sadomasoquista e desvia o enredo para outro desfecho, sem que se perca o clima de suspense riginalmente pretendido. Se o romance de Alencar já era obra para adultos, a paráfrase de Mattoso atende ao gosto exigente do leitor interessado não apenas na ficção erótica de alto nível, mas também na pesquisa histórica e no experimentalismo narrativo. São inúmeras as citações literárias entremeadas ao texto: ao lado de
poemas do próprio Mattoso e atribuídos aos personagens, desfilam Castro Alves, Álvares de Azevedo, Joaquim Manuel de Macedo e outros, explicitamente ou camuflados nas entrelinhas; as referências epigráficas são de Rocha Pombo, Pedro Calmon e Gilberto Freire; algumas cenas são evocativas de outros ficcionistas da época, sejam Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha ou Machado de Assis. Através das aventuras de um conquistador podólatra e de sua musa adorada, o leitor mergulhará no mágico universo das fantasias sexuais mais exóticas e clandestinas, numa sociedade patriarcal e conservadora." O processo de "desconstrução" e de"remontagem" dessa urdidura romântica resulta, na mão do fetichista do pé, em radical transformação: embora atendo-se à sintaxe e ao vocabulário oitocentista, GM subverte e perverte a estética e a ética do original, alterando a ordem dos capítulos, duplicando o elenco com a introdução de seus próprios personagens e "desencaminhando" a conduta dos personagens que já existiam. O efeito se concretiza numa nova trama entre protagonistas que Alencar não reconheceria e coadjuvantes que nenhum leitor atual estranharia, tal o grau de identificação com os tipos mais contraculturais do século XX. Ao contrário de Alencar, que apenas numera seus capítulos, Glauco os intitula como se constituíssem contos avulsos”.


 

Poética na Política: CEM SONETOS PANFLETÁRIOS (114 páginas – Geração Editorial).

 

Antologia dos sonetos mais políticos e polêmicos do autor, satirizando impiedosamente personagens e fatos da vida pública do país. Uma coleção dos poemas que, mensalmente, vinham ilustrando, à guisa de "charge lírica", a coluna"Porca miséria!" na revista "Caros Amigos".


Eis como o professor Barros Toledo comenta a faceta politizada de Mattoso: "Um dos vícios mais arraigados nos meios literários é aquilatar o mérito do escritor em função do grau de sua participação política, ou de seu 'engajamento', como se diz. Já aprioristicamente distorcido, tal critério resulta ainda mais tendencioso na medida em que aquele grau é tanto maior quanto mais à esquerda se posicione o autor, seja pela bússola da Casa das Américas, seja pelo radar da Academia Sueca. Mais grave que isso é o diapasão dos críticos cítricos, pelo qual o tom politicamente afinado seria o amargo ou o azedo, isto é, sem sal e sem açúcar. Por esses parâmetros, a poesia satírica -- justamente a mais ativista, na prática ("Ridendo castigatmores") -- fica sempre subestimada em paralelo com protestos mais 'sérios' e 'objetivos'. Em se tratando do tom apimentado da poesia fescenina, a segregação gustativa literalmente marginaliza o poeta, donde o rótulo de 'maldito' aplicado mesmo a quem não leva necessariamente uma vida clandestina ou desregrada, mas tematiza livremente certos tabus. No caso de GM, cuja poesia não é açucarada mas abunda em sal e pimenta, a maldição recai sobre o sadomasoquismo, o fetichismo, a escatologia e a cegueira, mas em nenhum momento eclipsa a independência e a irreverência com que o poeta aborda aspectos políticos em todos os níveis, manifestando sua revolta contra a opressão e a repressão, na ditadura ou na democracia, na direita ou na esquerda."

 

ELEITOREIRO

Fulano é candidato e, na pesquisa,
dispara feito um Senna, lá na frente.
Sicrano também quer ser presidente,
mas, como é governista, se narcisa.

Fulano em bronca nada economiza.
Sicrano, o branco, rindo, mostra o dente.
Barbudo, diz Fulano que "Ele mente!".
Farsante, tem Sicrano a cara lisa.

Por fora corre o cínico Beltrano,
gozando, no debate, os dois primeiros:
"Aquele dá calote; este dá cano!"

Produto, todos três, dos marqueteiros,
não têm ciência ou fé, projeto ou plano:
iguais, de resto, aos outros brasileiros.

 

TRAMITADO [a José Sarney]

Esforço concentrado. Destravada,
na pauta do Congresso há pão que sobre.
Vontades são políticas, e o pobre
consolo tem, sentado na privada.

Cagar agora pode! A deputada
promete aumento ao mínimo, que o dobre!
Não há força-tarefa que mais obre!
Na mesa do povão não falta nada!

Discursos e projetos e propostas!
Assim o congressista as mãos esfrega,
lavadas e enxugadas pelas costas!

Se a lei não funcionar, culpa o colega,
que por seu turno tem prontas respostas:
"Existe lei que pega e que não pega!"


PRESIDENCIAL

É fácil ser eleito presidente:
primeiro o cara avisa que não paga
a tal "dívida externa", que já estraga
as contas do país, sem quem agüente.

Assim, será possível que se aumente
o mínimo salário e que se traga
a novos operários uma vaga
na fábrica, e então tudo irá p'ra frente.

Maior moleza ainda é governar
depois de eleito em ampla maioria:
é só velhas promessas renovar!

Se nada inda mudou, culpa é da CIA,
do FMI, da ONU, a par
das leis, do antecessor, da guerra fria...


REVOLTADO

Os homens abominam tiranias,
condenam ditaduras de direita,
e mesmo o socialismo não aceita
caudilhos que arremedam monarquias.

Torcendo por Davi contra Golias,
dizendo não aos líderes de seita,
assim a Humanidade desrespeita
os mandos e desmandos dos maus guias.

Mas mais cruel, covarde e prepotente
é o Deus Onipotente que nos cria
a fim de judiar, unicamente.

Foi Ele quem, à minha revelia,
cegou-me e fez de mim um penitente
que apenas desabafa em poesia.


DEMOCRÁTICO

Você pode enganar a toda gente
durante meses, anos, certo prazo.
Você pode enganar, num outro caso,
um grupo limitado, eternamente.

O que não se permite nem consente
é alguém manter no mais completo atraso,
cagando em cima, usando como vaso,
populações de todo um continente.

Países democráticos depuram,
ou pelo menos devem depurar
as falsas plataformas dos que juram.

Ostenta a tentação de inaugurar
a laia perdulária. Não perduram.
Será? Mas ninguém pode assegurar.


CENTRISTA

"Extremos nunca! Não me comprometa!"
Assim diz quem é neutro e não se alia
à febre material da burguesia
nem ao materialismo de caneta.

"Nem a favor, nem contra!" É uma ampulheta
parada, cuja areia entope a via
e nunca sai do horário: meio-dia.
Não caga nem levanta da retreta.

"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra", diz.
"Nem oito, nem oitenta", diz também,
alheio à divisão dos dois Brasis.

É vaca de presépio e diz amém,
até que a voz das urnas ou fuzis
lhe jogue em plena cara quem é quem.

 

REPUBLICANO

Da cruz do Pedrão Álvares Cabral
até a suspeita morte do Tancredo,
explode o mau humor do Figueiredo.
A distensão do Geisel abre mal.

O Médici foi tri, mas ilegal.
O Costa e Silva é burro que dá medo.
Castelo Branco tarda, mas vem cedo
tirar da mão do Jango o manual.

O Jânio renuncia à força bruta.
Viaja o Juscelino p'ra Brasília.
O tiro do Getúlio arma a disputa.

Estado Novo segue a velha trilha.
República café-com-leite é fruta:
Banana a gente dá, vende e partilha.

 

INTEGRALISTA

Encara a liberdade pelo avesso.
Saúda os camaradas no "Anauê!".
O líder cujo livro a turma lê
é o Plínio, e foi salgado no seu preço.

Seu lastro cultural não desmereço,
mas tira do nazismo aquele quê
que, embora no Brasil em nada dê,
repúdio tem que ter desde o começo.

Se resta algo de bom que se aproveite,
talvez seja a lição do acontecido:
Suásticas não servem nem de enfeite!

Integralismo agora faz sentido
somente de manhã, no pão, no leite,
regimes mais saudáveis que o partido.

 

 

VOLTA AO TOPO

 


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