EDIÇÃO 22

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QUEM É A ELITE?

 

A controvérsia entre elitismo e democracia é tão antiga quanto a tradição da filosofia política.

 

A formulação original de uma teoria das elites remonta à crítica de Sócrates às rotinas igualitárias da vida pública na Atenas do século V a.C., quando homens comuns assumiram a direção dos negócios da cidade e aboliram as vontades dos deuses como origem da organização social. Passado o apogeu grego, a democracia viveu um longo ostracismo e, no século XIX, retornou na forma da democracia liberal. Cristina Buarque de Hollanda (Doutora em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, com extensão na Università Degli Studi di Padova, Itália e professora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ) oferece em Teoria das Elites (104 páginas – Zahar) um panorama do elitismo ao longo do tempo, esclarecendo modelos e noções como liberalismo, democracia liberal, representação política, soberania popular, igualdade política e sufrágio universal. A autora apresenta aspectos gerais da biografia e das ideias de Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e Robert Michels, principais formuladores da teoria das elites moderna. Em seguida, investiga versões contemporâneas do elitismo, com Joseph Schumpeter e Robert Dahl, quando as elites passam de obstáculo a condição da democracia. Por fim, aponta sinais do elitismo na formação da República brasileira, com atenção às obras de Oliveira Vianna e Assis Brasil, figuras-chave do pensamento republicano autoritário e liberal, respectivamente.

 

Entrevista com Cristina Buarque de Hollanda - originalmente disponível no site da editora Zahar

 

Teoria das elites pretende traçar um panorama completo e esclarecedor dos principais pensadores dos séculos XIX e XX que trataram o tema? Como escolheu esse percurso?

O objetivo do livro é apresentar ao leitor um conteúdo introdutório sobre o que se convencionou denominar [de] teoria das elites. Antes de chegar às formulações políticas e sociológicas de Gaetano Mosca, Vilfredo Pareto e Robert Michels, que são as referências clássicas para o tratamento deste tema, eu assinalo brevemente o que poderiam ser consideradas as bases de um pensamento elitista nas origens da política, lá no mundo antigo. Com este recuo histórico pretendo apontar que a controvérsia entre Sócrates e a pólis ateniense já contém, em alguma medida, os termos do desacordo entre elitistas e partidários da democracia-liberal em finais do século XIX e princípios do XX. Havia entre atenienses antigos um conflito entre duas perspectivas distintas de organização da vida na cidade: uma delas, democrática, percebia o cidadão comum como partícipe em potencial das decisões referidas ao mundo público e a outra, baseada na perspectiva de Sócrates, restringia esta possibilidade à elite dos sábios ou filósofos. Com o risco de certo anacronismo, podemos dizer que a política, logo em seguida a seu nascimento, experimentou um choque entre elitismo e contra-elitismo. Este antagonismo, portanto, tem longa data na história do Ocidente. Em seguida a este esforço introdutório, passo a tratar do cenário intelectual em que se situaram Mosca, Pareto e Michels. Sem perder de vista as importantes nuances entre suas visões sobre política e sociedade, busco entender “contra quem” e “com quem” estes autores se posicionavam no ambiente político e intelectual de seu tempo. A dimensão do “contra quem” é muito importante porque, em grande medida, estruturava a argumentação dos autores genericamente denominados elitistas. Isto é, apesar de importantes desacordos entre si, Mosca, Pareto e Michels compartilhavam um claro inimigo político e intelectual: o modelo de organização da vida pública que resultou da composição entre ideias liberais e democráticas. Para eles, as noções de soberania popular, igualdade política e sufrágio universal compunham um discurso abstrato, sem sustentação real. No diagnóstico elitista, todo exercício da política, estranho às suas justificativas formais, estava destinado a formar pequenos grupos que subordinam a maior parte da população. Quanto à dimensão do “com quem”, é importante ter em conta que a reação dos três autores ao avanço da democracia não foi isolada. No final do século XIX, teorias médicas e psicológicas destacavam o que seriam o comportamento irracional das massas e as hierarquias naturais entre os homens. Na contramão da ideologia democrática igualitária, essa retórica científica condenava a presença dos homens comuns na política.

O passo seguinte do livro é investigar ecos do elitismo clássico na versão contemporânea denominada elitismo democrático, com Joseph Schumpeter e Robert Dahl, em que as elites passam de obstáculo a condição da democracia. Nesse habilidoso equilíbrio político, a ideia de democracia é ressignificada, afastada de seu sentido original. Na sua nova forma, passa a acolher a suposição das elites como atores necessários ou inextinguíveis da vida política. Deste modo, supera-se o antagonismo antigo entre elites e democracia. Por fim, a última seção do livro é dedicada a identificar sinais do elitismo na formação da República brasileira, com atenção às obras políticas de Oliveira Viana (1883-1951) e Assis Brasil (1857-1938), figuras-chave do pensamento republicano autoritário e liberal, respectivamente. A partir deste recorte histórico específico, busquei apresentar a notável capacidade de adequação do elitismo a tradições bastante diferenciadas de pensamento sobre a política. Encerrado o livro, o leitor encontra uma pequena coletânea de conferências e cartas de Pareto e Michels que reúnem boa parte dos argumentos desenvolvidos pelos autores, de modo mais extenso, em suas obras.

 

 

De que modo o seu livro contribui para o estudo da teoria das elites?

Além dos próprios autores reconhecidos como elitistas, este tema já mereceu o tratamento de intelectuais de renome, como Raymond Aaron, Ettore Albertoni, Moses Finley, Tom Bottomore e Norberto Bobbio. Entre os brasileiros, destaco Mário Grynszpan, que fez um belo trabalho de leitura sociológica sobre as obras de Mosca e Pareto. Essas referências são indispensáveis para um estudo mais aprofundado deste campo do pensamento sociológico e político. Neste livro, dediquei-me a produzir uma abordagem sintética e sistemática dos principais autores e temas do elitismo, sem privilegiar um ou outro em particular. Uma espécie de panorama, enfim. Acho que esta é a principal vantagem para o leitor que estabelece uma aproximação inicial com o tema.

 


Compreender a teoria das elites é uma maneira de entender melhor as políticas de poder existentes no mundo hoje?

Embora o título do livro possa sugerir certa indistinção entre o corpo teórico do que se convencionou denominar elitismo, eu resisto a uma referência genérica que não leve em consideração as importantes nuances entre os autores normalmente associados a este campo de pensamento. Um dos meus objetivos na apresentação do livro é justamente explorar a ideia de que não constituíram uma escola de pensamento bem definida, com um corpo teórico preciso e bem delimitado. Uma das cartas de Pareto, incluída no final da edição, ilustra, por exemplo, a grande tensão que marcou sua distante relação com Mosca.
A despeito das diferenças significativas entre um e outro, creio ser possível dizer que os elitistas da primeira geração colocaram o dedo na ferida ou nas feridas da experiência democrática contemporânea. Não por acaso causaram – e ainda causam – grande incômodo. Dito isso, o desafio desta literatura para aqueles que preferem acreditar nas instituições da democracia é resistir ao possível efeito demolidor da crítica sem fechar os olhos para os vícios que assombram as rotinas da democracia liberal e que são duramente assinalados pelos elitistas. O risco do incômodo é que ele produza um descarte indistinto da crítica ou, como possibilidade avessa, arraste o leitor para um ceticismo irreversível no que concerne às possibilidades de sobrevida de alguma substância de democracia na política. A meu ver, é desejável que a crítica elitista instigue, por exemplo, a reflexão sobre os riscos da suspensão de vínculos entre o arsenal democrático e suas bases eleitorais. Isto é, que o encantamento com as rotinas institucionais da democracia não extinga a sensibilidade dos participantes e analistas da vida pública com relação àqueles que constituem formalmente o objeto de representação da política.

 

 

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